"Vamos lá. Seja destemida! Não vai se arrepender!"
Ela ouvia seus pensamentos como se alguém estivesse do seu lado, sussurrando no seu ouvido. Seguindo os instintos que ela escondeu por tanto tempo, fez com que seus pés se movessem em direção ao nada. Ela havia subido a montanha apenas para sentir a brisa no seu corpo, mas ao se deparar com a beirada, suas idéias mudaram. Ela queria experimentar algo novo. Se sentir viva pelo menos uma vez. Olhou para baixo e viu-se a poucos centímetros do fim do solo de terra. Fechou os olhos. Respirou fundo. Esticou os braços como se quisesse voar e impulsionou-se para a frente. Quando seu corpo encostou o ar, um sorriso bobo brotou em seu rosto. Ela estava livre. Nada mais importava. Ela finalmente havia enfrentado seu medo, e seu corpo inteiro pulsava com a adrenalina que percorria suas veias. Apesar de parecer uma eternidade, foram apenas alguns segundos de sensações inexplicáveis.
Ela lembrou-se da razão de seu medo. Não sabia o que faria quando chegasse ao chão. Antes, ela pensara que seria bom se livrar de tudo, mas agora via que havia tomado a decisão errada por impulso. Ela só queria mostrar a todos que não era a mesma de antes, e que agora nada a impediria de ser feliz. Mas a felicidade tem um preço muito alto, e esse ela teria que pagar. O chão estava cada vez mais próximo, ela já podia identificar a variedade de plantas que cresciam no solo verde. Nos poucos segundos que restaram, ela lembrou-se de todas as vezes que riu, de todas as pessoas que amou, e do quanto arrependia-se de ter se afastado de todos, só por não saber quem era. Agora ela sabia. Era dependente de todos que conhecera, pois eles quem deram significado à sua vida. Algo que nunca havia pensado passou na sua mente, enquanto as lágrimas denunciavam o arrependimento de seu ser: ela havia magoado todos que a amavam.
Deixando escapar a última gota de força de vontade que ainda tinha, ela gritou, como se pedisse perdão aos Céus. E então, tudo ficou escuro.
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